‘Copa das Favelas’ promete aproximar periferia do universo dos e-sports

O ano era 1999, eu tinha 11 anos, em casa jogando Sonic no meu Master System 3 em uma TV preto e branco que ganhei do meu tio Marcelo e, é claro, tomando meu quinto copo de achocolatado do dia. Foi ali que nasceu a minha intolerância à lactose e o meu amor aos videogames. Mas, como qualquer moleque de quebrada, ter acesso aos consoles atuais era impossível. Enquanto eu estava jogando felizão um videogame lançado 13 anos antes, a revista Playstation já anunciava o lançamento do Playstation 2 para 4 de março de 2000 –aquilo para qualquer periférico era um sonho muito distante.

A grande novidade nos videogames daquele ano era poder jogar online de casa, imagina? Jogar com outros moleques de outras quebradas? O máximo de jogo multiplayer que a gente conhecia era soltar pipa e dar uns “relooo” nos moleques da rua de baixo. Jogar online era um mundo muito distante.

Trecho do vídeo promocional do evento (Foto: Reprodução)

Mas, em meados de 2005, a quebrada  já começava a se virar. “Subiuuu!”, “bota a cara pra morrer, eu estou te vendo” era o que você ouvia nas lan-houses durante aqueles anos. “Counter-Strike” era o jogo, e ouvir do seu personagem a fala “the bomb has been planted!” era o objetivo. Podemos dizer que esse jogo de tiros em multiplayer nas lan-houses das quebradas foi a nossa primeira experiência de um campeonato de e-sport. Ali instintivamente se formavam equipes e jogadores que, se não fosse pela desigualdade, parceiro, tavam dominando esse mercado.

Em 2020, com a pandemia rolando, pouca coisa mudou. Videogames continuam sendo um sonho para muitos, e na quebrada poucos são os que conseguem fazer R$ 2700 em dez vezes no cartão só para comprar um Playstation 4 para o filho –lembrando que o 5 já foi lançado. Mas a gente sempre dá um jeito. Foi com esse sentimento de inclusão que foi criado o Copa das Favelas, campeonato online de “Free Fire” criado dentro da periferia para a periferia. Ainda sem uma data mas com previsão de acontecer no fim de novembro deste ano.

 

“A gente entende que a inclusão das pessoas pobres nesse universo é uma urgência “, diz Andreza Delgado, 25, uma das idealizadoras do torneio e também de outros eventos, como PerifaCon e PerifaGamer, “não só na criação de espaços a serem ocupados ou dar oportunidades, mas também para gerar um modelo de campeonato que possa atender essas pessoas.”

Imagem do making of do vídeo promocional dirigido por Jef Delgado e produzido por Tassio Yuri (Foto: Tassio Yuri/Divulgação)

Para ser um gamer hoje você precisa apenas de um celular que seja capaz de rodar os jogos que gosta. Para jogar “Free Fire”, por exemplo, você precisaria de um aparelho com pelo menos um processador Dual-Core, que custa em torno de R$ 500 a R$ 700 em uma loja online. Muito mais acessível, não acha? Ainda mais que, na quebrada, é só colar na feira do rolo que você consegue um bem mais barato.

“Abrindo esse espaço, a gente cria novos modelos de captação e geração de renda, além de mostrar para esse jovem de quebrada que ele também pode ser um atleta de e-sport”, diz Andreza. As inscrições para o Copa das Favelas começam no dia 16 de setembro, e, para saber mais sobre o campeonato, é só ficar atento às redes oficiais do evento.

Desde a tiazinha que, entre um trampo e outro, já chegou à fase 5000 do “Candy Crush” ao jovem de quebrada que usa os 2 giga de wi-fi da vizinha pra jogar uma FPS no celular, a quebrada diariamente dá o seu jeitinho para também ser um gamer e, quem sabe, finalizar o dia com aquela sensação boa de ouvir “you win!”.